Submarino desaparecido: jornalista relembra experiência traumática preso em embarcação no local do naufrágio do Titanic


Michael Guillen conta sua experiência de quase morte em um submersível durante mergulho para ver os destroços do Titanic no ano 2000. Michael Guillen fez o mesmo mergulho em 2000 em um submersível Mir da Rússia — como o que aparece nesta foto de arquivo
GETTY IMAGES/via BBC
Enquanto as buscas pelo submersível que desapareceu perto do naufrágio do Titanic continuam no Atlântico, o jornalista americano Michael Guillen relembra sua experiência angustiante de ficar preso em uma embarcação semelhante durante um mergulho no mesmo local em 2000.
“Fui o primeiro correspondente a fazer uma reportagem do local do naufrágio do Titanic. Então, naturalmente, estava empolgado”, contou Guillen, que na época era editor de ciência da rede americana ABC, à Radio 4, da BBC.
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Ele estava acompanhado do parceiro de mergulho Brian e do piloto russo Viktor — eles desceram até as profundezas do oceano em um pequeno submersível russo, que havia sido levado até o local pelo navio de pesquisa Akademik Mstislav Keldysh.
Depois de visitar a proa do Titanic, onde “tudo correu bem”, a tripulação decidiu ir até a área da popa, a uma certa distância dali.
O Titanic afundou em 15 de abril de 1912, após colidir com um iceberg. Antes de afundar, o transatlântico britânico se dividiu em duas partes.
“Ao nos aproximarmos da área de popa — passando por cima do que é chamado de campo de detritos —, fomos apanhados… por uma corrente subaquática muito rápida. E acabamos ficando presos na hélice”, diz Guillen, descrevendo-a como “enorme”.
“Do nada, houve uma batida. Nós simplesmente sentimos essa colisão e, de repente, vieram os detritos… pedaços enormes, pedaços enferrujados do Titanic começaram a cair sobre nós.”
‘Eu me despedi na minha mente’
Guillen, que é físico e agora um autor best-seller, diz que “ficou bem claro para nós, quase imediatamente, que estávamos presos”.
Segundo ele, o piloto, que costumava pilotar caças russos Mig, começou a manobrar o submarino para tentar escapar da hélice.
“É como se o seu carro ficasse atolado na lama: você tenta ir para frente, para trás, para frente, para trás. Simplesmente para tentar sair dali.”
“Todos nós ficamos em silêncio. Não queríamos perturbar ou distrair Viktor. Sabíamos que estávamos em uma crise. Então só ficamos calados.”
Submarino que leva turistas para ver o Titanic
Divulgação/OceanGate Expeditions
O submarino finalmente conseguiu se desvencilhar da hélice “por conta da habilidade do Viktor”, afirma Guillen.
“Tivemos sorte. Foi quase uma hora em que ficamos presos. E eu já havia praticamente me despedido na minha mente.”
“Nunca vou esquecer esse pensamento que me veio à cabeça: é assim que vai acabar para você.”
“Mas no final, sentimos que algo havia mudado… havia uma sensação de que estávamos flutuando.”
O jornalista lembra que tudo isso aconteceu na escuridão total, uma vez que o piloto apagou os holofotes do submersível.
“Não queríamos dizer nada. Fiquei pensando: ‘Meu Deus, será possível que escapamos?'”
“Então me virei para Viktor e perguntei: ‘OK?’ Só isso.”
“O inglês dele era ruim. E nunca vou esquecer [como] ele respondeu, murmurando com sotaque russo: ‘Tudo bem’.”
“Respirei aliviado.”
‘Estava pronto para enfrentar qualquer um que entrasse em pânico’
Guillen conta que eles levaram cerca de duas horas e meia para voltar à superfície, e as pessoas a bordo do navio de lançamento estavam cientes de que houve uma situação de “crise”.
Segundo ele, no ano 2000, havia apenas dois países que tinham submarinos capazes de suportar a enorme pressão da água — França e Rússia.
O jornalista comparou o submarino russo Mir de 7,8 metros de comprimento (26 pés) em que estava com o submersível Titan, que desapareceu no último domingo (18/06) no Oceano Atlântico com cinco pessoas a bordo.
“Nosso submersível não era nada parecido com este submersível luxuoso. Eu vi fotos do interior do Titan — parece uma mansão.”
Dentro do compartimento apertado, havia “dois bancos de cada lado — para mim e para meu companheiro de mergulho, e o piloto ficava no meio”.
“Tenho medo de água. Já era difícil para eu fazer aquilo”, admite Guillen. Mas ele afirma que simplesmente não podia recusar a oportunidade de fazer uma reportagem do local do naufrágio do Titanic.
Mapa mostra local do naufrágio do Titanic
Arte/BBC
Antes do mergulho, a tripulação foi instruída sobre o que esperar no submersível.
“Eles contaram uma história verídica que aconteceu quando outro cara se viu em uma crise no submersível”, diz o jornalista americano.
“O primeiro impulso dele foi ir até a escotilha. Porque seu primeiro instinto quando está preso lá embaixo é: você se levanta para chegar à escotilha, que está bem acima… pensando que vai escapar dessa forma.”
“Este cara fez isso em pânico e, claro, foi uma catástrofe, porque no momento que ele faz isso, basta uma rachadura; a água entra — está sob uma pressão muito forte: é como uma lâmina de barbear — corta você ao meio.”
“Fiquei muito preocupado que alguém pudesse fazer isso no submersível. Então, imediatamente fiquei vigilante”, lembra ele, acrescentando que não estava em pânico — mas estava “pronto para enfrentar qualquer outra pessoa no submarino que pudesse entrar em pânico”.
“Isso ajudou a me distrair da crise em que estávamos — meio que me deu um propósito, uma razão para não pensar em mais nada”, diz ele.
“E depois — sendo um cientista — logo comecei a fazer um inventário na minha cabeça: quanto nosso oxigênio vai durar, o que poderíamos fazer.”
“Pensei comigo mesmo como poderíamos sair daquela situação, e cheguei num ponto em que realmente tive que admitir o simples fato de que não havia saída”, diz ele, descrevendo as condições como “muito hostis”.
“Foi quando aquela voz veio à minha cabeça — é assim que vai acabar para você. E senti quase uma paz sobrenatural.”
Quando questionado sobre o desaparecimento do submersível Titan, Guillen não consegue conter a emoção.
“Meu coração está despedaçado por causa dessas cinco pobres almas lá embaixo”, diz ele, em meio a muitas lágrimas.
“Sei exatamente o que eles estão enfrentando. Simplesmente não há palavras para isso.”
“Sei o que eles estão passando. Estou rezando muito”, finalizou a entrevista fortemente emocionado.

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